ASAV - Associação dos Servidores Administrativos da UFV

História - Fasubra ontem e hoje

Perspectiva independente mostra a Fasubra ontem e hoje

Publicado no InformAsav nº 27, de junho/2010

Independente com relação às correntes políticas que compõem a Fasubra, Irany Campos, da UFMG, compartilha sua experiência de mais de 30 anos na Federação. Em entrevista ao InformAsav, o “educador social”,  Irany Campos, analisa a participação das tendências; a disputa desmedida pelo poder; a ascensão e queda do movimento sindical; e a atuação da esquerda no poder. Relembra o começo da Fasubra. Opina a respeito da desfiliação da CUT e do processo de formação dos militantes. E aponta rumos e desafios que os trabalhadores têm pela frente.

Irany Campos participou de três mandatos na Fasubra, dois como vice-presidente (1984-1986 e o subsequente) e um como coordenador regional (1991-1993). Atualmente é diretor de Formação do Trabalhador do Sindifes (Sindicato dos Trabalhadores nas Instituições Federais de Ensino Superior de MG). Irany foi militante de organização revolucionária e preso durante a ditadura.

O asaviano Saulo Penteado o define como “baluarte do movimento nacional” e afirma ter grande respeito por Irany. Tratamento este que não é exclusividade de asavianos. Sempre atuante, Irany goza de grande respeito de coordenadores da Federação e militantes de outras bases. Tal reverência pôde ser comprovada durante o Encontro de Formação e Comunicação promovido pela Fasubra, nos dias 15 e 16 de março, em Brasília. E foi nesta oportunidade que conversamos com Irany Campos, este profundo conhecedor do movimento dos técnico-administrativos das universidades.

InformAsav: Como você ingressou no movimento sindical?
Irany Campos: Desde quando comecei a trabalhar na UFMG, em 1958. Nesse período não existia uma entidade na universidade que lutasse pelos trabalhadores. Nós achávamos que era importante ter uma associação, então criamos a União dos Servidores da Faculdade de Medicina. Fui presidente da associação e depois tive que me afastar por questões políticas. Fui preso em Juiz de Fora, quando do Golpe de 1964, e fiquei lá de 1969 até 1971, quando fui trocado pelo embaixador suíço [Giovanni Bucher]. Quando voltei, a União dos Servidores tinha acabado. Ela foi fechada pela ditadura, e as pessoas a reabilitaram de forma diferente, com o nome de Assufemg. Procurei a entidade e comecei a trabalhar. O presidente da Assufemg, apesar de nós termos formação política diferente, sempre me mandava para representar a entidade na Fasubra. Na Fasubra, no fim de 1982, fizemos um encontro. Tinham dois encontros nacionais da Federação, que eram mais encontros de amigos do que político. E nós, eu juntamente com alguns companheiros da Universidade de São Carlos, da Fluminense, da Bahia, começamos nos movimentar no sentido de tomar. Por um descuido deles, de certa forma até com a ajuda do presidente da Universidade de Uberlândia, nós conseguimos aprovar a realização de um congresso. Só depois eles se deram conta da bobagem que fizeram, porque alguns, pelo interesse de passear, fazer farra, beber uísque, se retiraram, com isso nós ganhamos a votação. Passados seis meses, quando fizemos um encontro no Rio, conseguimos cobrar, daí foi feito o 1° Congresso da Federação, em Natal (RN), que coincidiu com a eleição. Na eleição, só conselhos de representantes e diretores de unidade votavam. Eu tinha sido eleito presidente da Assufemg e fui representá-la. Dada a votação difícil, aonde as pessoas chegaram a colocar revólver na mesa para nos intimidar, com uma delegação de 300 membros, onde esse pessoal ficou até às 2h da manhã no ginásio, e mais uma vez pela abstenção do voto do Eustáquio de Uber-lândia, nós conseguimos ganhar a eleição. Nessa direção tinha representante de muitas correntes políticas. Tinha gente do PCB, do PMDB, convergência socialista e independente. Mas tínhamos a preocupação de discutir coisas de interesse da Federação. Com isso tivemos dois mandatos muito construtivos.  Fizemos várias greves. Fizemos, nós não ganhamos o direito de greve. Durante a ditadura é que nós conquistamos o direito de fazer greve. Nós servidores públicos não podíamos nem sindicalizar, nem fazer greve. Apesar das nossas entidades não serem oficialmente sindicatos, elas começaram a trabalhar como sindicatos.

InformAsav: Qual leitura você faz entre o passado e o presente?
Irany Campos: Nós tivemos um momento muito importante no Brasil depois de 1979, quando veio a anistia política. A retomada dos movimentos sociais, inclusive a retomada do movimento dos trabalhadores, criou uma nova participação, com uma conotação muito revolucionária, e a Fasubra foi um dos pilares. Os militantes da Fasubra tiveram grande influência na construção do PT, na construção da CUT. Enquanto Federação somos membros fundadores da CUT. Tivemos mandatos nos primeiros anos da CUT. Participamos ativamente das eleições diretas. Nós criamos a representação dos trabalhadores das universidades, coisa que não existia antes. O movimento foi crescendo e atingimos um ápice de luta muito importante até o início da década de 90. Depois, realmente começou haver um declínio, que eu atribuo, principalmente, à prática política das tendências, que parecem não entender bem o papel para o qual foram criadas. Diziam que iam criá-las para criarem espaços de democracia. Mas, na verdade, elas tiveram uma participação muitas vezes autoritária. Elas acabaram criando a democracia das minorias. Até 1992, as diretorias brigavam muito pelo interesse dos trabalhadores, da construção da categoria. A partir daí iniciou as brigas fra-tricidas entre tendências, correntes político partidárias aparelhando sindicatos, querendo aparelhar a Federação. Com isso houve um declínio muito grande, que corresponde ao declínio do movimento social. Lamentavelmente, nós tivemos um declínio nas lutas sociais. Por incrível que pareça, justamente quando deveria estar em ascensão, quando conseguimos eleger um governo popular. Quando se elege um governo como nós elegemos o Lula, era de se esperar uma ascensão do movimento de esquerda, progressista, e foi o contrário. Isso porque a grande maioria dos dirigentes se afastou das bases, se tornaram burocratas, passaram a defender interesse do governo e esqueceram a categoria.

InformAsav:  Como você avalia a tentativa do presidente  fazer seu sucessor?
Irany Campos: Nós estamos numa encruzilhada. Eu tenho dito que lamentavelmente não tenho votado no melhor. Do meu ponto de vista, enquanto militante socialista, da transformação social, acreditar que o Lula fosse o melhor representante para nos conduzir nesse meio... Obviamente, que ele trouxe vantagens se tiver continuidade. Seria um desastre para a sociedade, para nós do movimento sindical, se houver a volta do PSDB e DEM para voltar a implantar definitivamente aquela visão neoliberal. O nosso governo, por exemplo, não correspondeu na perspectiva da transformação social. Algumas coisas foram feitas, que hoje podem se considerar benéficas, necessárias, como o Bolsa-família, o Prouni. São coisas importantes, mas que não têm sustentação, sem passar para o trabalhador a consciência de que se nós não elegermos o sucessor do Lula,  corremos sérios riscos de perder essas conquistas. Mas, por outro lado, nós temos que lamentar muito que um governo popular tenha atacado de certa forma os trabalhadores nas suas conquistas, principalmente, os aposentados. O Lula não foi capaz de chamar os aposentados de “vagabundos” como o Fernando Henrique Cardoso chamou. Mas ele tratou os aposentados com muito desdém. Não foi capaz de criar uma política de respeito aos aposentados e entender que todos são futuros aposentandos.
  
InformAsav:  Qual a sua opinião sobre a trajetória da Fasubra nesses mais de 30 anos?
Irany Campos: Talvez, a Fasubra foi a mais politizada Federação, pelo menos, no seu período de 20 anos. Mas, pelas brigas fratricidas entre os grupos políticos, ela tem sofrido derrotas. Um exemplo, nós não vamos mais para um Congresso para discutir política, planos, estratégias de intervenção. Mas vamos apenas para discutir poder, poder pelo poder. E os grupos, normalmente, demonstram não estarem preparados para exercer o poder. Não quero ofender ninguém pessoalmente, mas é uma cultura das organizações, algumas ditas de esquerda, que eu fico em dúvida se realmente são de esquerda. 

InformAsav: Como você avalia a decisão do último Congresso da Fasubra de desfiliação da CUT?
Irany Campos: Eu considero total equívoco. Mas a proposta de des-filiação da CUT iniciou porque o grupo da corrente classista do PCdoB sempre foi contra a filiação à CUT. Em 86, quando nós realizávamos um Congresso em Cuiabá, e defendíamos a filiação, o PCdoB se posicionava contrário. Eles preferiam se filiar a CGT [Confederação Geral dos Trabalhadores], que era uma entidade conservadora, até com mais caráter reacionário de classe do que realmente de federação dos trabalhadores. Agora, eles devem estar extremamente satisfeitos porque conseguiram. Não por serem mais fortes, mas pela nossa fragilidade orgânica. Mas eu acredito que o juízo político voltará e conseguiremos filiar à CUT novamente. Eu, particularmente, tenho muitas críticas à CUT. Isso é natural. Nós da militância temos que aprender uma coisa que não aprendemos até hoje: saber lidar com as divergências políticas. As divergências quando bem tratadas são extremamente salutar. Mas é preciso que tenhamos maturidade para discuti-las. Mas a luta de classe é isso. Tem muita gente que está no campo progressista e que não é progressista, é questão de tempo, de interesses pessoais, partidários, de tendências e, às vezes, esquecem o real interesse da categoria. Eu sou totalmente contra a visão corporati-va. Acho que nós ainda temos uma visão corpo-rativa no movimento sindical, principalmente, no funcionalismo público. Nós temos que buscar eliminar esse corporati-vismo. Mas, não como alguns fazem a proposta, de que nós temos que organizar MST, temos que organizar terceirizados. Não. Nós temos que organizar nossa categoria com tática política de intervenção, coisa que não estamos fazendo.
  
InformAsav: Você é independente? Fale um pouco sobre a sua posição.
Irany Campos: Sou independente com relação às correntes. Dentro do PT também sou independente. Com isso eu apanho muito. Porque o independente não é de confiança nem de um lado, nem de outro. Um lado te considera radical de esquerda. O outro  não te considera nada porque você não é importante. É uma visão estereotipada que se tem da militância de esquerda que não corresponde com a realidade de construção socialista, nem nada. A princípio nós temos que considerar todos companheiros e companheiras, e a solidariedade e a fraternidade tem que reinar entre nós, sempre. É muito bom eu divergir de você e vice-versa e sermos capazes de conversar com tranquilidade, com aquela visão: você me ensina, eu aprendo. Eu aprendo, eu te ensino. É a dialética que eu aplico do Paulo Freire, quando ele dizia que o conhecimento tem que ser aluno/professor. As tendências poderiam ter um papel muito importante. Elas teoricamente têm uma visão de democracia com a pro-porcionalidade, mas a prática delas é até antidemocrática e autoritária.

InformAsav: Qual a sua opinião sobre o processo de formação dos militantes?
Irany Campos: Eu fui militante de organização revolucionária nos anos 60. No passado, o militante era obrigado a estudar, a ler. O que vejo hoje, é que os militantes não são preparados para serem dirigentes amanhã. Embora muitos estejam lutando, lutando pelo poder, eles não se preparam. A esquerda não formou pessoas para dirigir amanhã. Com a tomada do governo popular no Brasil, de modo geral, faltaram dirigentes de esquerda de maior competência, onde nós somos obrigados pôr um reacionário no Banco Central. Nós temos que pensar nisso, como Paulo Freire e Anísio Teixeira, pessoas comprometidas com a educação popular. Eu aprendi a ter amor pela educação. O meu primeiro trabalho enquanto trabalhador de carteira assinada foi na UFMG, onde eu sempre tive o privilégio de encontrar pessoas que me transmitissem conhecimento. Por isso é que eu comecei a me denominar educador social. O conhecimento que eu tenho não pode ser apenas meu. Para que tenha valor, é preciso que eu o repasse para alguém.
  
InformAsav: Você acredita que a formação de lideranças passa pela educação?
Irany Campos: Passa pela educação formal e informal. Porque a educação formal nos ajuda muito do ponto de vista técnico, e o que vai te dar realmente um norte político para se desenvolver é a educação informal. É sabido que grande quantidade dos nossos militantes não lê, não estuda. Estuda às vezes. Agora, por exemplo, na universidade, está uma corrida para tirar curso superior. Por causa de quê? Por causa de conhecimento? Não. Por causa de promoção salarial.

InformAsav: Você tem alguma formação acadêmica?
Irany Campos: Tenho. Comecei fazer sociologia, depois larguei e fiz Direito. Até cheguei advogar por 10 anos depois de aposentar. Depois, eu não andava muito satisfeito com a advocacia, porque no Brasil, advogar de forma ética é difícil. Você percebe que a justiça é mais injusta do que justa. E eu vi que o movimento na UFMG estava muito devagar, aí resolvi dar minha contribuição mais ativa. Em 2005, eu voltei a ocupar um cargo de direção, e entrei com uma exigência: só entro se for para a pasta de Formação Sindical. Coordenação Geral é muito bom para pessoas mais novas. 
  
InformAsav: Os cursos de formação são atividades que os sindicatos devem ou não realizar?
Irany Campos: Sim, devem fazer. Como você vai ser sindicalista se você não sabe o que é um sindicato? O que é ideologia? O Marx dizia uma coisa que eu certifiquei que é certa: “o trabalhador tem a ideologia da classe dominante”. Hoje, a maior ideologia dominante é a ideologia do consumismo. Se você pesquisar, possivelmente, vai encontrar pelo menos 90% dos nossos sindicalistas consumistas. Não consomem mais porque o salário é baixo. Por isso, eles acabam se comprometendo com o sistema capitalista inconscientemente. A alienação na universidade é geral. Triste realidade. As universidades não fazem quase nada de discussão dos problemas mais sérios da sociedade, onde ela deveria ser o celeiro. Ela está a serviço da classe dominante. Ela investe no setor de tec-nologias, mas no setor humano ela não investe. O diagnóstico dos nossos problemas nós temos, até demais. Agora, nós precisamos conseguir o remédio: ter ideologia e ter compromisso político no processo de transformação social.  Se não tiver essas duas coisas nós não vamos para frente, e no primeiro chamado da classe dominante eu largo a minha tarefa e vou ser executivo, professor universitário particular, vou ser advogado de empresas como a Coca-Cola, advogado de traficantes, e vai por aí afora.

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