Ao longo do ano, o centenário da Universidade Federal de Viçosa, celebrado em 28 de agosto, foi relembrado em muitas ocasiões. O selo comemorativo tem estampado dezenas de divulgações e eventos institucionais, acadêmicos e culturais. O aniversário da UFV foi comemorado em sessão solene na Câmara dos Deputados em Brasília e também na Câmara de Vereadores de Viçosa. A própria colação de grau de agosto de 2026 foi muito especial para instituição por ter sido celebrada no mês do centenário.
Porém, um fato ocorrido exatamente nessa cerimônia trouxe à tona um problema antigo, tão longevo quanto a própria Universidade.
Placa para os docentes, chaveirinho para os técnicos
Toda cerimônia de colação de grau tem um momento de homenagem, e isso não é de agora. Um passeio rápido pelos corredores do edifício Arthur Bernardes, o “Bernardão”, e qualquer pessoa percebe que, desde a primeira turma, já havia homenagens – aos docentes, apenas, mas havia.
Os técnicos administrativos começaram a ser homenageados apenas na história mais recente da UFV, após a federalização. Há registros pontuais ao longo da década de 1970, que foram se tornando mais frequentes até chegar aos dias atuais, em que há técnicos homenageados em todas as formaturas.
Essas homenagens não são obrigatórias, e tanto sua realização quanto a escolha das pessoas homenageadas são decididas espontaneamente pelos próprios formandos, através das comissões de formatura: os nomes são propostos, discutidos, votados e, finalmente, convidados para a homenagem. A escolha de presenteá-los ou não com algum objeto – geralmente, uma placa metálica com dizeres de homenagem e personalizada com o nome da pessoa – também é dos formandos.
E logo na formatura do centenário, dois fatos chegaram até nós:
- o cerimonial da empresa contratada, ao se aproximar das pessoas homenageadas (que ficam sentadas em cadeiras separadas do público geral), perguntava: “você é docente ou funcionário?”;
- os docentes receberam placas com dizeres de homenagem (não personalizadas); os técnicos administrativos receberam chaveirinhos metálicos com dizeres de homenagem (também não personalizadas).
Não seria, em si, um problema que merecesse uma nota de nossa parte; servidores públicos são tratados como “funcionários do governo” o tempo todo, e está tudo bem com isso. O problema é que, segundo notícia do jornal Folha da Mata, ao questionar os diretores da Comissão de Formatura de agosto/2026 sobre o motivo da diferenciação nos itens de homenagem, a resposta foi: orçamento limitado. Mediante o cenário desfavorável, a direção da Comissão de Formatura decidiu manter a placa da homenagem aos docentes e economizar nos itens de homenagem aos técnicos. Por que? O que os levou a solucionar a limitação orçamentária economizando nos itens com os quais presenteariam os técnicos homenageados e mantendo os que seriam ofertados aos docentes?
Importante dizer que muitos formandos, ao saberem do ocorrido, se posicionaram contra a decisão da direção. Afirmaram que o combinado era que todos os homenageados receberiam as placas, sem distinção, e que foram pegos de surpresa ao tomar conhecimento da diferenciação dos itens.
Problema histórico
Ao observar o tempo decorrido entre a primeira formatura até a primeira homenagem direcionada a um servidor técnico-administrativo, a questão histórica fica escancarada.
A homenagem aos servidores é um gesto voluntário dos formandos mas, nessa formatura, ele transcreveu muito bem a cultura da universidade, que ultrapassa os limites do campus: a de que os docentes seriam uma espécie de “categoria especial” do serviço público, e os técnicos nem servidores seriam: são “funcionários”.
A maioria dos estudantes chega à UFV como uma folha em branco no que tange ao conhecimento sobre os procedimentos administrativos. E aqui, no seio da nossa própria instituição, são ensinados que o quadro é dividido entre docentes e ‘funcionários’, ou ainda docentes e ‘servidores’. Essa última, inclusive, é muito comum nos supermercados com programa de desconto: “você é docente ou servidor?”. Desconhecimento promovido por uma cultura interna, colocando docentes num patamar diferenciado, jamais no mesmo dos técnicos. E se isso não parecer suficiente para comprovar a cultura interna, confira-se a distinção feita entre professores e “servidores” nos atos do Campus Oficial (aliás: já leu o de hoje?).
Não raro, técnicos são considerados pelos colegas do magistério como “moedas de troca” entre departamentos, especialmente os dos níveis mais baixos. São deixados à parte nas políticas de afastamento para capacitação pelo governo e pela administração superior, discriminados pelas chefias que acham que “técnico não tem que estudar, tem é que trabalhar”.
Centenário amargo para os técnicos administrativos
Já havia uma neblina pesada de descontentamento suspensa no ar antes disso acontecer.
Haverá um baile no dia 28 em celebração ao centenário, para todos os que quiserem participar – e tiverem à disposição um valor entre R$245,00 e R$350,00 para os ingressos individuais. As mesas, já esgotadas, foram vendidas a $2.400,00. São valores que ultrapassam a capacidade pagadora de muitos técnicos, em especial os dos níveis A, B e C, os de menor salário. Estes estão/foram deixados fora do baile, mesmo tendo participado ativamente da construção e da manutenção da UFV com inúmeras horas de suas vidas.
E agora, esse descaso com a categoria no momento de homenageá-los: um afago e um tapa ao mesmo tempo, de maneira indelével e injustificável.
Em equipe, o correto é: quando não se pode fazer para todos, que seja feito para nenhum, ou que seja feito para todos mesmo que com mais simplicidade. Mas quando se ESCOLHE fazer para poucos e deixar os demais às favas, como desimportantes… cada um tire suas próprias conclusões.
Como a mudança de postura é convenientemente lenta demais…
… a Asav traz uma proposta viável: que a UFV desenvolva uma diretriz específica sobre as homenagens para ser aplicada já nas próximas cerimônias (toda e qualquer), PROIBINDO TERMINANTEMENTE a diferenciação, de qualquer espécie, entre docentes e técnicos administrativos, seja nos presentes ofertados, no tempo de fala, na representação imagética nas divulgações dos eventos etc.
É pouco, mas é possível; exige pouco tempo para elaborar, aprovar e implementar, e impede que uma situação vexatória como essa aconteça novamente, mesmo que por “inocência”.
O primeiro centenário já foi. Mas quem sabe…?
(imagem com audiodescrição)