ARTIGO: Mulheres negras continuam fora dos espaços de poder na UFV, revela estudo

Car de fundo preto com texto em letras amarelas: "O imaginário brasileiro, pelo racismo, não concebe reconhecer que as mulheres negras são intelectuais. Conceição Evaristo, escritora". Logo da Asav.
WhatsApp
Facebook
Twitter
Email
LinkedIn
Facebook

ARTIGO: Mulheres negras continuam fora dos espaços de poder na UFV, revela estudo

Pesquisa mostra que, mesmo em ambiente público e universitário, brancos seguem no topo e mulheres negras são as mais excluídas das posições de liderança

 

por Edimara Maria Ferreira

 

As desigualdades de gênero e raça que marcam o mercado de trabalho brasileiro também se refletem dentro das universidades públicas. Um estudo realizado na Universidade Federal de Viçosa (UFV) revelou que homens brancos ainda dominam os cargos de gestão administrativa e acadêmica, enquanto mulheres negras são minoria absoluta — e, em alguns setores, simplesmente não aparecem.

A pesquisa, desenvolvida pelas pesquisadoras Edimara Maria Ferreira e Karla Maria Damiano Teixeira, analisou dados do Cendas em agosto de 2021.so Étnico-Racial da UFV realizado durante os meses de julho e agosto de 2017 e informações oficiais sobre a ocupação de cargos de chefia entre 1974 e 2021 disponibiliza.Os resultados mostram de forma evidente que a universidade, assim como outras instituições públicas, reproduz hierarquias raciais e de gênero que estruturam a sociedade brasileira.

“Os espaços institucionais de poder ainda são territórios de privilégio branco e masculino”, afirmam as autoras.

Segundo o levantamento, construído a partir dessas duas bases de dados, 75% dos cargos de direção na UFV são ocupados por homens, e apenas 25% por mulheres. Quando se analisa também a raça, a disparidade aumenta: homens brancos ocupam a maioria das posições de prestígio, enquanto mulheres negras aparecem com os menores índices de presença — e, em alguns departamentos, não há nenhuma mulher negra em cargos de comando.

Mesmo em áreas consideradas “feminilizadas”, como as ciências humanas e biológicas, o padrão se repete. Já nos centros de ciências exatas e agrárias, os postos de poder são amplamente masculinos. “A mulher negra continua enfrentando as barreiras do racismo e do sexismo que limitam seu acesso a espaços de decisão”, diz o estudo.

 

Racismo estrutural e institucional

As autoras alertam que a universidade não está isolada da sociedade — ela reproduz as mesmas desigualdades que marcam o país. “A base da pirâmide institucional é ocupada, prioritariamente, por mulheres negras. Isso é expressão do racismo estrutural e do racismo institucional”, apontam.

O problema é agravado pela falta de dados raciais: mais de 60% dos registros funcionais da UFV não continham informação sobre cor ou raça, o que invisibiliza a presença (ou ausência) de pessoas negras e dificulta o monitoramento das políticas públicas.

 

 Interseccionalidade como chave

O estudo utilizou o conceito de “regimes de desigualdade”, da socióloga norte-americana Joan Acker, e a perspectiva da interseccionalidade, desenvolvida por feministas negras como Kimberlé Crenshaw e Patricia Hill Collins. Essa abordagem mostra como gênero, raça e classe se entrelaçam na produção das desigualdades — e por que políticas focadas apenas em gênero não bastam.

Políticas afirmativas precisam ir além do ingresso

Embora as políticas de cotas tenham ampliado o acesso de negros e negras ao ensino superior, o estudo mostra que essas ações ainda não chegaram aos espaços de comando. Ferreira e Teixeira defendem que as ações afirmativas também devem alcançar os níveis hierárquicos superiores, garantindo a representatividade racial e de gênero na gestão universitária.

Pelas análises apresentadas no estudo pode-se concluir que é preciso romper com o ciclo que naturaliza o poder nas mãos dos homens brancos e que marginaliza as mulheres negras. A diversidade precisa estar presente em todos os níveis da instituição.

 

Fonte: Ferreira, E. M.; Teixeira, K. M. D. Hierarquias raciais e de gênero na gestão administrativa e acadêmica da UFV. Revista Argumentum, Vitória, v. 14, n. 1, jan./abr. 2022.

Olá, como podemos te ajudar?
Acessar o conteúdo